terça-feira, 30 de dezembro de 2025

OS FILHOS DOS QUARTOS

- Você vai passar o dia inteiro trancado aí, filho? - Reclama a mãe, desolada, sem saber como agir, observando o filho fechado em seu espaço. No passado temíamos perder nossos filhos para as ruas, hoje, por incrível que pareça, estamos perdendo nossos filhos para os seus quartos. 

Até pouco tempo nossas casas eram vistas como um ambiente seguro, uma fortaleza que protegia, que colocava nossos filhos livres dos perigos das ruas, e hoje o perigo vai além das ruas e também reside dentro dos nossos lares. 

É equivocado acreditar que os filhos dos quartos estão isolados do mundo. Não estão. As tecnologias permitem o contato com qualquer pessoa de qualquer lugar do planeta, de forma instantânea. Porém, e isso preocupa, eles estão cada vez mais isolados e distantes da família.

A família, que deveria ser a base da formação da criança, do jovem, hoje possui concorrências poderosas, que são as redes sociais, os joguinhos, os youtubers, os influenciadores, os vídeos, os amigos virtuais etc. Os algoritmos parecem conhecer nossos filhos melhor que nós mesmos, disponibilizando conteúdos de acordo com o interesse deles, fortalecendo e validando aquilo que eles acreditam. 

Tememos deixar uma criança desacompanhada na rua, mas ao deixá-la sozinha em seu quarto permitimos que a rua entre em nossa casa. E o que acessam, o que acreditam, com quem trocam mensagens, quem são seus amigos, o que está acontecendo, o que pensam, o que sentem, quem está do outro lado da rede etc.?

E os problemas vão além do excesso e influência das telas. Sem interação, sem convivência familiar, não se fortalecem os vínculos afetivos, e sem isso, muitos tornam-se frios, distantes e egoístas. Muitos terão dificuldades em socializar, em entrar no mercado de trabalho, em enfrentar os desafios da vida real.

Diante de toda ameaça que os quartos podem representar, ainda fazemos dele o ambiente desejado dos filhos. Colocamos uma tevê de qualidade, com canais a perder de vista, notebook com acesso livre à internet, jogos de videogames, ar condicionado, frigobar e entregamos a chave nas mãos dele. Quando precisam de alguma coisa, enviam o pedido via mensagem de celular e o atendemos prontamente e ainda reclamamos que ele não sai do quarto.

E o que fazer? Para não prolongar tanto este texto, no próximo vamos apresentar algumas dicas, orientações e sugestões para pensarmos o nosso agir diante deste desafio dos tempos modernos. Até breve.


Celso Garrefa - Pedagogo Social

Autor dos livros "Assertividade, um jeito inteligente de educar" 

e " O primeiro dia da minha nova vida"




sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

O QUE A SUPERPROTEÇÃO E A DESPROTEÇÃO POSSUEM EM COMUM?

Tenho citado, em minhas palestras, que o excesso de tudo faz tão mal quanto a falta de tudo e compreender essa realidade é necessário para os pais que desejam educar bem seus filhos. 

Nossos filhos não nascem prontos para a vida. Para sobreviver eles precisam do amparo, do cuidado e da proteção dos pais. Além da proteção básica, como alimentação, cuidados com a saúde, higiene etc., também precisam ser protegidos de qualquer tipo de violência, de maltrato, de exposição a conteúdos inadequados, de exploração sexual etc. 

Os pequenos precisam de pais presentes que guiem os seus passos, que os preparem para a vida, e esse é um detalhe importante: preparar para a vida. 

Muitas crianças não têm a sorte de nascer em famílias cuidadoras e sofrem vários tipos de abandonos, afetivos, materiais, espirituais etc., muitos convivem diariamente com a violência, seja ela direta ou indireta e são machucadas por aqueles que deveriam protegê-las. 

Essa exposição a fatores negativos as colocam em alto grau de vulnerabilidade, ainda que parte delas, apesar de toda adversidade, ainda consigam mudar os rumos da sua vida e construir a própria história. 

Por outro lado, no anseio de proteger, muitos pais extrapolam os limites da normalidade e adotam atitudes de extrema proteção, ou suja, a superproteção. E há que refletirmos também e diferenciar a proteção necessária, da superproteção. 

E para tanto costumo sugerir uma regra básica e essencial na educação dos filhos: façam tudo o que forem capazes de fazer para proteger, para preservar, para ajudar os seus filhos, mas não façam nada, absolutamente nada, do que eles são capazes de fazer por si mesmos.

Permitam que eles carreguem o material escolar que é deles, permitam que eles levantem do sofá e se sirvam sozinhos de um copo de água, permitam que eles cooperam com o grupo familiar, permitam que eles assumam responsabilidades etc. 

Mostre a eles que para tudo há limites, cuidado com os excessos de presentes, de festas, de sins. Ensinem a esperar, a conquistar, a lutar para conseguir. Não premiem comportamentos inadequados e aprenda a importância deles aprenderem o significado da palavra "não" dentro de casa. 

Pode parecer loucura, mas continuo afirmando, sem nenhum medo de errar, quando mais facilitamos, quanto mais resolvemos, quanto mais enchemos os filhos de coisas, presentes e sins, sem deles nada exigir em troca, mais estes crescem insatisfeitos e revoltados com os pais. Sem noções de limites eles crescem sentindo o todo poderoso e exigindo cada vez mais. 

Pode até parecer absurdo, mas a desproteção e a superproteção colocam os filhos praticamente ao mesmo nível de vulnerabilidade, por isso, volta a repetir: o excesso de tudo faz tão mal quanto a falta de tudo. 


Celso Garrefa



domingo, 14 de dezembro de 2025

EMPATIA: QUEM É O "EU" QUE DESEJO COLOCAR NO LUGAR DO OUTRO?

Atualmente, observamos que muitas pessoas se tornaram especialistas em criticar, condenar, dar palpites na vida dos outros, mesmo sem conhecer a pessoa, sua história de vida, seu contexto familiar. Julgam-se sabedores de tudo, e adoram apresentar soluções simplistas e mirabolantes para problemas complexos. A estes costuma chamar de especialistas de poltrona. 

A empatia, ou seja, a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro, parece-nos que cada vez mais está em desuso. Desenvolver essa qualidade é fundamental para enxergarmos o outro em suas diversidades, e pensarmos em, de fato, ser um membro capaz de apoiar, de ajudar, de cooperar com aqueles que tanto necessitam de um socorro, de um auxílio.

É necessário, para tanto, pensar sobre a empatia. Muitas vezes nos preocupamos tanto em relação ao nosso próximo e esquecemos de nós mesmos e nos abandonamos. Seguimos cuidando de tudo e de todos, tentando resolver os problemas alheios e não adotamos, em relação a nós mesmos, o autocuidado e assim, vamos nos colocando em segundo, terceiro, décimo plano. 

E posto isto, surge um questionamento: qual é o "eu" que desejo colocar no lugar do outro? É um "eu" que não se enxerga, não se valoriza, não reconhece o seu valor e não se ama ou um "eu" que sabe do poder do amor-próprio? Se não somos capazes de nos amar, certamente vamos encontrar dificuldades para amar o outro. Será que esse "eu" que desejamos colocar no lugar do outro, é aquele que ele deseja?

Reafirmamos a importância de desenvolvermos a empatia, ao lidarmos com nossos semelhantes, mas para que isso tenha a funcionalidade que desejamos, primeiro precisamos desenvolver a empatia conosco mesmos. Muitas vezes nos colocamos distantes de nós mesmos, ausentes de nossa realidade, vivemos de fantasias, e de acordo com padrões estabelecidos pelos outros. Ou seja, desejamos nos colocar no lugar do outro, e quem sou eu?

Por tudo isso, somos o ponto de partida, cuidando-nos, valorizando-nos, plenos de amor-próprio, e assim, que possamos ser capazes de colocar no lugar do outro um "eu"  que valha a pena.


Celso Garrefa









ÂNCORAS IMOBILIZAM, RAÍZES NUTREM

Observando nossos comportamentos, como podemos nos avaliar? Podemos nos comparar a uma raiz ou a uma âncora? E qual é a diferença, como pode...